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Processos de Criação e Oficina de Ideias
Curso de Comunicação em Mídias Digitais - UFPB - Período 2011.1

Horário: Quarta-feira, das 13 às 15 horas e Quinta, das 17 às 19 horas

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
CURSO DE COMUNICAÇÃO EM MÍDIAS DIGITAIS - DEMID
Disciplina: Processos de Criação e Oficina de Ideias
Professor Dr. Marcos Nicolau
Créditos: 04 - Período: 2011.1

Ementa: Os processos e as técnicas de criação. Inovação e criatividade para produtos hipermidiáticos. Desenvolvimento de técnicas de criação individual e coletiva: insights e branstormings. As mídias digitais como suportes para as atividades intelectuais.

Objetivos: proporcionar aos alunos o desenvolvimento pessoal e profissional dos recursos criativos necessários para a inovação prática de produtos das mídias digitais nas diferentes áreas.

Contéudo programático:

Unidade I
Criatividade e habilidades cognitivas
Técnicas de estímulo à criatividade: insigths e brainstormings
Criatividade e inovação: princípios motivadores na prática

Unidade II
Criatividade, inovação e mudanças na Cibercultura
As Mídias Digitais como ambientes de criação e inovação
Como transformar ideias em inovações concretas e funcionais

Unidade III
Oficina de criação de produtos inovadores para as mídias digitais

Metodologia:
aulas expositivas, atividades laboratoriais, exercícios e práticas, exposição e debates sobre as inovações produzidas individualmente e em grupo.
Avaliação:
os alunos serão avaliados pela assiduidade, participação e elaboração das atividades exigidas em sala de aula.

Referências:

ALENCAR, Eunice Soriano de; FLEITH, Denise de Souza. Criatividade: múltiplas perspectivas. 3. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2009.

ALENCAR, Eunice Soriano de; BRUNO-FARIA, Maria de Fátima; FLEITH, Denise de Sousa (Orgs). Medidas de criatividade: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2010.

BARRETO, Roberto Menna. Criatividade no trabalho e na vida. São Paulo: Summus, 1997.

BRODIE, Ricard. Vírus da mente: a nova e revolucionária ciência dos memes. São Paulo: Cultrix, 2010.
DE BONO, Edward. Os seis chapéus do pensamento. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008.

KELLEY, Thomas; LITTMAN, Jonathan. As 10 faces da inovação: estratégias para turbinar a criatividade. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

KOTLER, Philip; TRIAS DE BIES, Fernando. Marketing lateral. Rio de Janeiro: Campus, 2004.

NICOLAU, Marcos. Razão & criatividade: tópicos para uma pedagogia neurocientífica. João Pessoa: Ideia, 2007.

______. DeZcaminhos para a criatividade. 2. ed. João Pessoa: Ideia, 2011.

SILVA, Antônio Carlos Teixeira da. Inovação: como criar ideias que geram resultados. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2003.

TERRA, José Claudio Cyrineu (Org). Inovação: quebrando paradigmas para vencer. São Paulo: Saraiva, 2007.


PRIMEIROS CONCEITOS SOBRE CRIATIVIDADE - TEXTO BÁSICO

É preciso ver o incomum no óbvio*

Quais as posturas que as pessoas criativas assumem? O que devemos fazer de diferente para sermos criativos nos momentos em que precisamos da criatividade para alcançar melhores resultados?

Uma resposta talvez possa ser intuída em diferentes exemplos. O inusitado pode estar até mesmo nos mais elementares comportamentos dos quais não nos damos conta: quando um professor ou um palestrante começa a transmitir sua mensagem, é comum depararmos com pessoas que acham o assunto banal, não lhe dando atenção. Dizem para si mesmas que já sabem daquilo e se ocupam com outros pensamentos ou em conversas paralelas. Realmente, o que o ministrante está falando pode ser conhecido, entretanto, é justamente a postura contrária, a de dar atenção ao banal, de descobrir aspectos novos, de estar alerta ao trivial que permite que muitos façam descobertas importantes, porque alimentam este espírito de estar atentos. As respostas imprescindíveis, muitas vezes, escondem-se no banal e somente uma pessoa atenta pode percebe-las.

Foi assim que se fizeram muitas descobertas e invenções na história da humanidade: se um químico da Du Pont não resolvesse examinar um pedaço de borracha queimada que ia para o lixo, jamais teria descoberto o Nylon; se o Dr. Fleming tivesse jogado fora aquela substância que mofou por descuido, talvez não tivesse descoberto a penicilina. E eles não são vistos como pessoas criativas por excelência, e sim especialistas que, em determinado momento prescindiram da racionalidade formal, por isso chegaram a seus resultados. Assim, mais uma vez recorremos a uma dessas frases oportunas, dita por Heráclito há 2.500 anos: se você não estiver esperando, nunca vai encontrar o inesperado.

Soma-se a estes, um número extenso de exemplos na história ocidental, apropriadamente citados por Menna Barreto, e dos quais escolhemos alguns, que mostram a imprevisibilidade de fatores envolvidos nas posturas e descobertas de personalidades bem conhecidas.

O que move as pessoas em direção às suas descobertas? Graham Bell procura criar um aparelho para minimizar o problema de surdez que afligia sua esposa, sua sogra e ele mesmo: chegou ao telefone. Pasteur presenciara na infância a morte de pessoas conhecidas, causadas pelo ataque de um lobo raivoso. Essa perturbação o impulsionou a descobrir a vacina anti-rábica.

Somente os especialistas realizam invenções e descobertas? O violino foi inventado por François Tourte, um relojoeiro parisiense. Samuel Morse, o inventor do telégrafo, era pintor profissional de retratos. A máquina de tricotar foi criada pelo reverendo William Lee e o aspirador de pó, por Hubert Booth, um construtor de pontes. O escultor renascentista, Cellini, criou um suporte para suas pesadas esculturas, que podiam mover-se sobre rolos em caixinhas e, assim, inventou o rolamento. Cassini, um astrônomo, e Ramazzini, um professor de medicina, foram responsáveis pela criação do poço artesiano. O filme para fixar imagens coloridas, tão procurado pela indústria fotográfica, foi inventado por dois músicos, nos banheiros dos hotéis de suas tournées.

Todas as invenções eram sucesso e seus autores enaltecidos em suas épocas? O professor Pierre Pouchet, fisiologista de Tolouse, classificou de ficção ridícula, a teoria de Pasteur dando conta de que as doenças eram causadas por germes. O Raio X, que permitia fotografar os ossos dentro do corpo, foi chamado de mistificação pelo presidente da Real Sociedade Britânica de Ciência, o físico Lord Kelvin. O compositor e crítico alemão Johan Sheibi, disse publicamente que as composições de Bach eram desprovidas de beleza, enquanto o violinista e também compositor alemão Louis Spoh, ao ouvir pela primeira vez a 5a Sinfonia de Beethoven, classificou-a como uma orgia de sons vulgares. O próprio Lumiére, diante da sua famosa invenção, disse: o cinema não tem nenhum futuro. É um demonstrativo de que a criatividade surge das necessidades da vida e do trabalho, movida por sentimentos os mais peculiares que são experimentados e cultivados por todos nós no decorrer de nossa existência. Como procedemos para realizar o que buscamos, é o que faz a diferença.

Não-especialista: para além de um saber há sempre uma visão irrestrita*


O caminho mais seguro para a nossa profissionalização, sem dúvida, é a especialização. Entretanto, para tornarmo-nos um melhor especialista precisamos aprender a agir como um não-especialista. Temos que ser como aquele senhor que costumava pousar sua bolsa no banco da praça, retirar dela sua pipa e, depois de desatar a calda e o carretel, lançá-la aos céus da tardinha. Sua especialidade? era um dos melhores fabricantes de piões - os que as crianças mais procuravam. Perguntado porque não se divertia rodopiando seus brinquedos, ele dizia: - Meu pensamento gira com os piões rotineiramente. Por isso, nas horas de folga, prefiro lançá-lo ao alto para que tenha as visões que não pode ter aqui em baixo. É assim que crio novos modelos para as carrapetas.

O que é um especialista senão aquele profissional que estuda, observa, lê tudo o que diz respeito ao seu trabalho; conhece as melhores técnicas e mapeia todos os tipos de problemas relacionados à sua atividade; escuta os outros especialistas da área? Por isso está sempre pensando dentro dos parâmetros e do contexto de sua prática. Quando surge um problema, daqueles imprevisíveis, para o qual os manuais não têm explicações e nenhum outro especialista conhece, sua mente gira em círculos à procura de solução.

Nesse momento, deve-se esquecer que se é um especialista, para que se possa ver o problema sob outras perspectivas. Os procedimentos são esquecidos; as técnicas conhecidas ficam de molho.
Ao romper com o próprio ponto de vista especializado, o profissional rompe com as limitações que o seu conhecimento técnico havia imposto à sua mente. O pensamento pode agora transitar mais livremente por outras maneiras de encarar as coisas, como o exemplo apresentado por Menna Barreto sobre o dentista que inventou a broca de dentes. Greenwoold tinha à sua volta todos os instrumentos utilizados na sua profissão: pinças, boticões, tesouras, mas foi buscar uma idéia para seu instrumento odontológico revolucionário na roda de fiar da mãe dele. Somente depois de conseguir uma solução ou alternativa inusitada é que o não-especialista volta a ser o especialista de sempre, valendo-se de toda a sua experiência e técnica para colocar em prática suas descobertas.

Para Nachmanovitch, diferentes profissionais necessitam dessa postura mais livre da técnica que permite encarar mais diretamente seus desafios. Um amigo médico perguntou-lhe o que um assunto tão efêmero como a criatividade espontânea tem a ver com alguém como ele, cujo trabalho é prático e científico. A resposta veio com uma pergunta: “onde está a arte na medicina?”. O amigo disse que na falsa medicina o médico encara o paciente tal qual o relato de um livro de casos médicos, vendo a pessoa como um grupo genérico de sintomas e tenta classificá-lo de acordo com o que seus professores lhe ensinaram. Na verdadeira medicina, cada pessoa é única - num certo sentido, o médico deixa de lado o conhecimento puramente técnico e mergulha no caso, deixando que sua visão se forme de acordo com aquele contexto particular. Utiliza-se de seus conhecimentos como referência, mas não permite que eles o ceguem para a pessoa de carne e osso que está à sua frente. Essa visão assegura um olhar integral sobre o paciente, que vai muito além dos sintomas e revela os verdadeiros fatores que causam a doença. A partir de então, volta à cena o especialista a conduzir melhor o tratamento.

Não há como negar a importância da especialização. Mesmo no campo da arte, se formam os especialistas com suas técnicas de composição, pintura, escultura, porque a técnica é própria do fazer, do executar, do concretizar. Realmente, para fazer, do executar, do concretizar. Realmente, para fazer qualquer coisa com arte é preciso adquirir técnica, mas, ressalta Nachmanovitch, criamos por meio de nossa técnica, e não com ela. O especialista criativo sabe disso: sua técnica o conduz àqueles resultados desejados e conhecidos, porém, para descobrir e inventar o novo, é preciso quase sempre sair da sua técnica ou criar outras, para colocar em prática o que se descobriu.

A busca do especialista, portanto, deve estar muito além da quantidade e da qualidade do seu conhecimento. Mais precisamente, deve romper com todo esse conhecimento quando ele não é capaz de mostrar a melhor resposta. A diferença entre os mais inventivos experts aparece naqueles que descobrem as melhores alternativas porque ousam sair da condição de meros especialistas, quer seja pela irreverência, quer seja pelo bom-humor, ou mesmo liberando a criança instigadora e curiosa que traz no íntimo.

*Textos extraídos do livro de Marcos Nicolau: DeZcaminhos para a criatividade (Idéia Editora).


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